|
Atriz do Palco da vida Após ter feito uma
faxina na cozinha, dirigi-me à sala para fazer o mesmo. Enquanto tirava o pó dos móveis, meus
pensamentos começaram a divagar... Voltei à minha juventude. Revi a mocinha
magrinha cheia de sonhos e alegria; pude ver seu rosto lisinho sem nenhuma
marca de expressão, seus cabelos negros na altura da cintura esvoaçando ao
vento, seus olhos castanhos brilhando, com aquele brilho especial de quem acredita na vida. Aos poucos fui vendo esta mocinha se transformar em moça feita. Vi
essa jovem vestida de noiva entrando na igreja de braço dado com seu irmão,
que com orgulho a levava ao altar. Eu
a vi dizer o sim, toda compenetrada. Eu a vi já esposa, em seu novo lar, num
apartamento apertadinho, mas decorado com muito carinho. Em seguida, em vários flashs, eu a vi pular
de alegria ao saber que estava grávida. Eu a vi radiante comprar o enxoval
para seu nenê. Eu a vi beijando e abençoando seu filho que
acabará de nascer. Eu a vi muito feliz ao saber que estava grávida novamente. Eu a vi aos prantos na maternidade, após saber que sua filhinha era
deficiente mental. Continuando em meu percurso, eu a vi sendo abandonada
por seu marido, e a vi chorar novamente. Eu a vi lutando com bravura... trabalhando
fora durante o dia, dando todos os cuidados que sua filha necessitava à noite
e reservando um tempinho para atender ao seu filho. Eu a vi matriculada no ginásio (de novo)
somente para poder acompanhar sua filha todas as noites nas aulas; indo ao
curso de computação para depois ensinar à sua menina. Eu a vi com doçura perdoar seu marido, que lhe pedia perdão e que
voltara depois que seus filhos estavam grandes. Eu a vi com sacrifício pagar a faculdade de seu filho, e, depois a vi cheia de si, vê-lo receber o diploma de psicólogo. Eu a vi sorrir orgulhosa quando sua filha se casou. Eu a vi serenamente olhar seu filho no altar e agradecer
silenciosamente a Deus por ter cumprido sua missão. De repente, o telefone toca. Saindo do transe, eu me percebo triste e
magoada ... os anos passaram rapidamente sem que eu
me desse conta. O tilintar do telefone continua, dirijo-me rapidamente ao local aonde
ele se encontra... Passo em frente ao espelho... Olho-me... Enquanto dou uma
ajeitada nos cabelos com os dedos, penso: “ainda vou deixa-los ao natural”. Rio de mim mesma. Já tentei fazer isso, mas, quando as raízes começam
a crescer e cada vez mais aparecem, conscientizo-me
de que não sou muito corajosa para tomar tal atitude. Muitas vezes eu me pergunto: Por que tenho vergonha de mostrar aos
outros meus cabelos grisalhos? Será que é por medo do preconceito? Será que é
porque a aparência física é importante para a sociedade? Não encontrando resposta adequada, chego à conclusão de que vivo no palco da
vida, sou atriz da vida real, tenho que representar, usar maquiagem, dizer o
texto do script... O grande público assim exige. Registrado em cartório |