
O amor de mãe é capaz de realizar feitos surpreendentes.
A aposentada Muriel Elisa Távora Niess Pokk, de 54 anos, que o diga. Há mais de
dois anos, ela teve de aprender computação para poder ensinar a filha Rita de
Cássia Niess Pokk, de 19 anos, que não era aceita pelas escolas por ser
portadora de síndrome de Down. Na mesma época, Muriel iniciou outra luta:
conseguir que provedores criassem uma sala de bate-papo destinada aos
deficientes físicos e excepcionais.
‘‘Minha
filha queria encontrar um namorado e também fazer amigos. Sugeri a ela que
entrasse em uma sala de bate-papo’’, recorda Muriel.
Segundo
a aposentada, quando Rita mencionava que era portadora da Síndrome de Down,
os internautas reagiam com brincadeiras ou simplesmente paravam de teclar com
ela. ‘‘Eu sentia uma dor no coração ao perceber que deixavam de falar com
minha filha por preconceito’’, lamenta Muriel.
Para comprovar a rejeição que
os usuários de chats têm pelos deficientes, a aposentada começou a entrar em
várias salas de bate-papo. Após alguns minutos de conversa, Muriel dizia que
era surda, paraplégica ou tetraplégica. Isso era o suficiente para que os
internautas a deixassem falando sozinha. ‘‘Fiquei revoltada ao constatar que
rejeitavam todos os portadores de deficiência’’, lembra.
Muriel decidiu então escrever
para os provedores UOL e STI pedindo que eles criassem um chat destinado aos
deficientes. ‘‘Eles alegavam que estavam estudando o assunto e diziam que os
deficientes poderiam entrar em qualquer
uma das salas’’. Além das
cartas, Muriel preparou um abaixo-assinado com 390 assinaturas reivindicando
um espaço para os portadores de deficiência. Mais uma vez não obteve retorno.
Começou a mandar cartas para tevês, rádios e jornais, mas ninguém dava
atenção.
Para a alegria de Muriel e sua
filha, a carta foi publicada no jornal O Globo do Rio de Janeiro no dia 24 de
janeiro deste ano. Três dias depois, o provedor
Starmedia entrava em contato
com a aposentada para discutir a criação de um chat para os deficientes.
‘‘Fiquei muito contente com a atenção do provedor,
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que até pediu sugestão para o visual da sala de bate-papo, conta
Muriel. No início do mês passado, a Starmedia acabou lançando o primeiro chat
voltado aos internautas portadores de deficiência no site Bate Papo
(www.batepapo.com.br).
Segundo Muriel, ainda são poucas as pessoas que visitam a sala da
StarMedia. ‘‘Até agora a Rita fez amizade com um rapaz do Rio de Janeiro que
é paraplégico. Queremos nos próximos meses fazer encontros entre os usuários da sala, como fazem os outros internautas’’, afirma
Muriel, que também está criando um site para promover a integração dos
portadores de Síndrome de Down.
‘‘Estou
pensando em criar um espaço na Internet para que, além de amigos, os
portadores de Down possam encontrar sua cara metade. Eles também têm direito
à vida amorosa’’.
A
aposentada diz que a informática está permitindo que Rita se sinta um pouco
independente. ‘‘Ela já ganha seu próprio dinheirinho fazendo cartões de
visita e digitando trabalhos escolares em casa. Mas o sonho da vida dela é
trabalhar em um escritório’’. Muriel diz que não medirá esforços para tornar
realidade o desejo da filha. Afinal, ela não pensou duas vezes em
matricular-se em uma escola pública para que a filha pudesse estudar no curso
de ensino médio. ‘‘Passei a freqüentar as aulas com minha filha porque a
escola disse que ela precisaria ter alguém para acompanhá-la por causa de seu
problema. Estudava na mesma sala com ela e à noite repassávamos as
matérias’’, relembra emocionada.
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