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Mãe
protesta contra o tratamento recebido ao tentar casar a filha
Rede SACI
26/01/2005
Padres se negavam a realizar o casamento de duas pessoas com Síndrome de Down
Muriel Elisa Távora Niess Pokk (*)
Quando a minha filha Rita de Cássia Niess Pokk e Ariel, ambos portadores de
Síndrome de Down, foram se casar, começou a minha via crucis.
Fui a várias igrejas, mas todos os padres se recusaram a fazer o casamento.
Um deles "bondosamente" se ofereceu para fazer o casamento, mas, de
portas fechadas, sem que ninguém visse.
Resolvi falar com o pessoal da Cúria Metropolitana de São Paulo; talvez eles
não soubessem que estava havendo esse preconceito todo.
Liguei para lá no dia seis de abril de 2003 e falei com o monsenhor Cosmo
Maestri. Ao ouvir que eu queria que um padre fizesse o casamento da minha
filha Down, ele respondeu secamente que eu aguardasse uma semana, pois
precisava conversar com outras pessoas. Eu aguardei, mas ele não retornou com
uma resposta.
Liguei novamente dia seis de maio de 2003, e tornei a falar com esse
monsenhor. Mais uma vez, ele mandou que eu aguardasse uma semana pois não
tinha uma resposta ainda. E assim foi a cada ligação que eu fazia. Depois de
ser "enrolada" por ele durante 4 meses, liguei exigindo uma resposta.
Ele, estupidamente, falou:
- A senhora esta fazendo tudo isso porque é uma mãe frustrada que quer se
realizar através de sua filha, por que ela mesma nem sabe o que está
acontecendo.
Eu falei que não era verdade, pois eu já havia me casado na igreja. E que era
o sonho da minha filha se casar em nossa religião, pois o noivo era judeu.
Então ele, mesmo sem conhecer os noivos, continuou:
- Não fazemos casamento de retardados, retardados não casam. Eles não sabem o
que estão fazendo.
Perguntei a ele em que lugar da bíblia estava escrito isso, mas ele não
respondeu. Nem poderia. Essa besteira que ele disse não está escrito em lugar
nenhum da Bíblia porque, perante Deus, somos todos iguais.
Isso são coisas de mentes mesquinhas de homens preconceituosos que acham que
têm todo o poder, mas não tem nenhum.
Muito irritada, falei que ia contratar um pastor da igreja evangélica para
casar minha filha, pois Deus era um só. Falei também que ia contratar um
repórter para fazer a reportagem do casamento e que, antes da cerimônia se
realizar, iria pegar o microfone e dizer:
- A partir de hoje, eu e minha família estamos deixando de ser católicos,
pois o Monsenhor Cosmo Maetri disse que a igreja católica não casa
retardados.
E bati o telefone. O telefone tornou a tocar; era o Monsenhor. Primeiro
agrediu-me verbalmente e, depois, mandou que eu entrasse em contato com o
Padre Boim da Igreja Nossa senhora da Esperança (Moema).
Mesmo magoada com as ofensas ouvidas, fiquei contente porque achei que estava
tudo resolvido.
Liguei para a igreja e falei:
- Padre, o Monsenhor mandou falar com o senhor para combinar o casamento,
então está tudo certo? Quando posso ir aí?
Ele respondeu:
- Não tem nada certo. Primeiro, preciso ver que tipo de pessoas vocês são.
Fomos até lá e, finalmente, ficou tudo marcado.
O casamento foi feito no salão do buffet, pois foi um casamento ecumênico.
Ainda bem que havia o rabino que falou coisas bonitas e fez um casamento
lindíssimo. Porque o padre leu uma poesia do Carlos Drumond de Andrade e logo
após apenas um pequenino trecho de um salmo. Nem sequer deu uma benção aos
noivos.
Aqui fica o meu protesto contra esse preconceito todo da igreja católica
apostólica romana (com letra minúscula mesmo) que, através de seus
representantes, tem preconceito contra o portador de deficiência.
(*) Muriel Elisa Távora Niess Pokk é mãe de Rita de Cássia, que têm Síndrome
de Down, e criadora da primeira sala de bate-papo para pessoas com
deficiência do Brasil.
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