CASAMENTO INCLUSIVO

                                               Fabiano Puhlmann

 

 

          Um domingo de sol ao meio dia, um rabino e um padre se preparam para o ritual de casamento celebrado a duas mãos, um casamento inédito será celebrado naquele salão ricamente decorado com flores brancas e vermelhas.

          Um judeu e uma católica brasileira há tempos isto seria motivo para estranheza, mas vivemos uma nova era, novas realidades, novos paradigmas, novas filosofias a respeito da vida da sociedade, da religião, do amor.

         Olhando para o salão podemos notar que entre os convidados, pessoas da família de ambas as partes, alem de alguns jovens diferentes, alegres, inteligentes, extremamente simpáticos querem sentar-se o mais próximo possível do evento que eles nunca imaginaram poder testemunhar.

         Começam a tocar musicas hebraicas e cristãs, começam a entrar os padrinhos, e ao fundo, um instante de surpresa, o noivo surge com seu fraque de gala, complementado pelo uso do “quipa ritualístico”, ele olha para todos e com passos firmes preenche o espaço naquele templo sagrado, seus colegas vibram, ele conseguiu se casar, todos também podem tentar.

         O noivo orgulhoso é um síndrome de down, que com sua força interior venceu os preconceitos, acreditou no amor e hoje realiza seu sonho mais sagrado, todos que o conhecem sabem que ele é muito determinado, o admiravam por estar trabalhando com carteira assinada, por ter participado de uma novela, por ser um baterista e boxeador, mas quando ele comunicou a todos que iria se casar, muitos não acreditaram ser possível tamanha façanha.

         O casamento de um casal portador de síndrome de down, ambos unidos por uma paixão avassaladora, que tem muito de sagrada, mas sem deixar de ser profana no melhor sentido da palavra, amor nascido de uma paixão intensa, com direito a romance, intimidade e sexo, e tudo com a benção e a ajuda de duas famílias extremamente diferenciadas, capazes de enfrentar as críticas e o desdém de muitos outros pais que não acreditavam ser possível a um síndrome de down ter uma vida realmente inclusiva, com direito ao amor com responsabilidade.

         Meus devaneios e lagrimas recebem um novo choque de realidade quando a marcha nupcial anuncia a chegada da noiva, todos se levantam em respeito e admiração, a noiva conduzida ao altar-tenda, o pai mostrando grande emoção levava sua filha especial para os braços de um homem também especial, fiquei pensando se este pai um dia lá no passado quando recebeu a noticia que sua filha era síndrome de down conseguia imaginar aquilo que ele estava vivendo naquele instante.

         As mães e os pais, os padrinhos e madrinhas, os parentes, os amigos e os profissionais que ajudaram na inclusão deste casal na sociedade, todos estavam comovidos, não existia uma única pessoa que estivesse alheia à emoção que contagiava a todos, parecia uma espécie de milagre, uma graça compartilhada, uma responsabilidade coletiva sobre uma escolha individual.

         Lembrei-me da primeira vez que encontrei aquele homem há seis anos atrás, sua mãe decidida me pediu para ajuda-la na educação sexual do filho, ele era tão menino, com seus 17 anos, cheio de sonhos e de duvidas, vivia ainda um mundo semi-infantil semi-adolescente, repleto de fantasias, não se via como um síndrome de down, apesar de estar em uma escola especializada em downs, achava que ele não era bobo como muitos de seus colegas, ele achava que down era uma espécie de xingamento, queria ter trigêmeos, já que o irmão mais velho teve gêmeos, imaginava que o numero de filhos era proporcional à força que o homem exercia durante o ato sexual.

         Anos depois, depois de muita terapia, depois de ter tirado “pós-graduação” em sexualidade teórica e prática, depois de terminar um namoro água com açúcar com uma colega, ele finalmente foi flechado pelo cupido, tive o prazer de acompanhar o nascimento de uma paixão intensa, compartilhei seus medos e da família, os temores, os constrangimentos e as alegrias, me lembro de um dia ele me ligar de madrugada pedindo um conselho, ele estava com vontade de ligar para a namorada e não sabia se devia faze-lo eu lhe disse para ligar e não ter medo de seus sentimentos, que ele deveria estar com saudades, ele disse que não agüentava de saudades, mas que tinha acabado de falar com ela há poucos minutos e estava louco de vontade de falar com ela novamente.

         A cerimônia continuava emocionante o rabino pediu para todos imaginarem que estávamos em uma tenda no deserto e conduziu o casal para a repetição das palavras sagradas da união, quando a noiva respondeu sim, passeia a devanear novamente, lembrei do dia em que os dois tiveram a primeira relação, foi à luz de velas, regada a cerveja sem álcool, ela vestida de cetim, finalmente se entregou para ele na casa de seus pais com a benção de sua mãe que aguardava ansiosamente na sala o desfecho daquele ato sagrado de amor e sexo.

         O casamento estava selado, a aliança já se encontrava nas mãos de ambos o casal se beijava, naquele momento lembrei que eles tinham decidido nunca terem filhos, a noiva tinha medo de ter um filho com problemas e o noivo alegava que não tinha paciência suficiente para cuidar de um filho, antes de eles terem a primeira relação o noivo fez exames para constatar se era fértil ou não, o resultado foi positivo ele queria e precisava fazer a vasectomia, por um lado porque já tinha decidido e por outro para aplacar as angústias dos pais, uma vez o noivo relatou-me um sonho, ele subia uma montanha e no topo da mesma encontrou com o “Senhor” que lhe disse ao pé do ouvido uma frase muito significativa: “Seu esperma é bom”, um sonho simbólico que evidenciava o imenso potencial deste homem que optou por não ter filhos nesta vida, mas que com sua energia tem dado frutos coletivos, a cada sonho pessoal que realiza.

         A festa se inicia regada a vinho branco e salgadinhos finos, no meio do povo agora disperso, todos os pequenos grupos não falem de outra coisa é unânime, ninguém nunca presenciou um casamento tão emocionante.