Por Muriel Elisa T. Niess Pokk

Tenho dois filhos, sendo que o primeiro é um menino saudável e o segundo é uma menina portadora da Síndrome de Down. Minha filha nasceu no dia 23 de abril de 1980, no Hospital Santa Joana, quando eu tinha 34 anos. Dei à luz a Rita de Cássia às 7 horas da manhã, após ter sido submetida a uma cesariana.

Ao meio-dia, entra em meu quarto um pediatra que, sem muita delicadeza, fala em disparada: "Sua filha é 'mongol', fica roxa com muita facilidade, porque tem problemas cardíacos, e nem ao menos consegue mamar direito. Mas não fique muito chateada não, pois ela deve morrer logo; crianças com essa síndrome não vivem muito tempo, talvez nem chegue a sair do hospital."

Chocada, perguntei: "Mas, ao menos, ela se mexe?" E ele respondeu: "E de que adianta isso?" Dizendo essas coisas, sem ao menos me dar tempo de perguntar mais nada, saiu do quarto, na mesma velocidade com que entrou, para nunca mais retornar. O choque foi muito grande. Eu estava sozinha. Não tinha ninguém para conversar, pois cada membro da minha família tinha seus afazeres, não podia me fazer companhia no hospital.

Meu marido tinha ido trabalhar, mesmo podendo ter optado por ficar comigo. Uma dor imensa me invadiu. Senti-me abandonada, como se estivesse em alto-mar agarrada apenas a um pedaço de madeira, sem terra à vista. Como uma criança pequena, chorei desesperadamente. Não queria acreditar, não era verdade que minha filha era retardada... esse médico tinha se enganado, há tantas pessoas que se enganam...

À noite, quando meu marido chegou e contei a ele o que o médico tinha dito, ele apenas falou: "O que a gente pode fazer? Paciência!". Sem dizer mais nada, deitou-se e dormiu. Chorei e rezei a noite inteira. Tinha a certeza, agora, pela frieza de suas palavras, de que ele não me daria apoio algum.

No dia seguinte, ele saiu às 6 horas da manhã, sem tocar no assunto. Às 6:30, trouxeram minha pequena Rita para que eu pudesse segurá-la. Eu estava deitada, pois ainda não podia levantar a cabeça, por causa da anestesia.

Então a colocaram nos meus braços. Ao sentir seu corpinho franzino e pequenino junto de mim, percebi o quanto ela era indefesa e frágil. Segurei suas mãozinhas e falei para ela: "Estarei sempre ao seu lado, nunca vou abandonar você. Nós duas, juntas, vamos vencer todas as barreiras que surgirem em sua vida. Juntas, vamos vencer tudo e todos."

"Quem sabe o médico não tinha se enganado?"

Com apenas um dia de vida, Rita pareceu ter compreendido e sorriu para mim. Uma grande força me invadiu naquele momento. Quando a levaram de volta ao berçário, percebi que não poderia ficar ali no hospital os cinco dias recomendados. O tempo era precioso, e quanto antes saísse dali seria melhor. Pedi ao médico que me desse alta. Ele não deu porque, na parte da manhã, havia-se completado apenas 24 horas da minha operação.

Ao meio-dia, a enfermeira trouxe outra vez minha filha para ficar um pouco comigo. Quando ela saiu, decidi que iria fugir com Rita. Não iria deixar minha bonequinha morrer, como eles diziam. O tempo parecia colaborar, fazia muito frio, então coloquei-a debaixo do meu casacão e desci dois andares pelas escadas, com medo de que os médicos me pegassem no elevador. Chegando ao andar térreo, disfarcei um pouco e, tremendo de medo, saí pela porta central, encontrando, por Providência Divina, um táxi estacionado bem na frente do hospital.

Ao chegar em casa, marquei o exame de sangue dela, num laboratório famoso, pois precisava ter certeza de que aquele veredicto era real. Quem sabe o médico não tinha se enganado? Fui sozinha com minha filha para fazer o exame. Quando ele ficou pronto, fui tomada por uma grande sensação de medo. Meu coração parecia espremido no peito.

Queria que alguém me fizesse companhia para buscar o exame, mas todos estavam ocupados demais. Inclusive o meu marido. Ele disse: "Não dá para ir com você agora, mas deixa, qualquer dia eu pego o exame." Na curiosidade angustiante em que eu estava, não dava para deixar para outro dia. Meus filhos ficaram na casa da minha irmã e fui sozinha buscar o exame no laboratório, com a esperança de que o resultado do exame fosse negativo.

Mas, infelizmente, ao abrir o exame, lá estava escrito: Portadora da Síndrome de Down. Eu queria sair correndo, mas as pernas não queriam obedecer. Queria abraçar alguém, mas não havia ninguém para eu abraçar ou para me abraçar. Mais uma vez eu estava sozinha quando mais precisava de alguém.

Só me restava chorar e chorei muito, ali mesmo, sem me importar com mais nada. Quando saí do laboratório e entrei no meu carro, as lágrimas agora corriam silenciosas. Uma raiva imensa da vida começou a crescer dentro de mim e eu gritei alto (sem me importar se alguém dos outros carros estavam ouvindo): "Você, vida, não vai me vencer, eu vou vencer você, eu vou vencer você, eu vou te vencer." Depois fui repetindo isso, já sem gritar, até chegar em casa. Sabia que a luta dali para a frente seria grande. Mas não sabia com certeza a extensão dessa batalha.

"Então, comecei a colocar o leite em sua boquinha com um conta-gotas."

Rita havia saído da maternidade muito resfriada. Estava sem voz, ficava roxa todas as vezes que chorava e não tinha força para mamar. Na primeira vez, eu tirei leite do peito e dei a ela numa colherinha, mas ela se engasgou. Então, comecei a colocar o leite em sua boquinha com um conta-gotas. Ela ficava muito fria e roxinha, aí eu a enrolava com cobertores e colocava várias bolsas de água quente ao redor dela, trocando-as assim que amornavam. Tinha medo de colocar aquecedor, pois ele podia ficar muito quente e ela se queimar.

Os médicos não me davam muita esperança quanto ao futuro dela. O que eu ouvia deles era terrível. Um me disse que ela nunca iria ter dentes, pois não possuía arcada dentária. (Tenho as radiografias.) Outro afirmou que ela nunca iria andar, pois, além da falta de coordenação, tinha os pés voltados para dentro. Outros diziam que, se o exame dela tivesse dado "Mosaico", ainda poderia melhorar, mas o exame tinha dado "Total" e era muito difícil esperar que ela melhorasse. Cada vez que ia a um médico, ficava mais e mais amargurada.

Com o coração aos pedaços, orando, falei para DEUS: "Eles podem ter o conhecimento da Terra, mas não têm o conhecimento do Céu. Senhor, os homens não têm cura para minha filha, mas o SENHOR tem. Oh! DEUS, Todo Poderoso, me ensina e me mostra tudo o que existe e que pode levar à cura da minha filha, ou pelo menos que a faça chegar bem perto da cura". Andando com ela nos braços, segurei sua mãozinha novamente e disse: "Nós vamos achar o caminho”, e ela sorriu para mim novamente.

Deus, na sua bondade infinita, fez com que eu me lembrasse repentinamente de minha avó. Ela era enfermeira na Alemanha e quando sua filha aos três anos ficou cega, ela buscara diversos livros sobre tratamento natural, e aplicara todos esses métodos em sua filha caçula. Os métodos eram lentos e exigiam muita disciplina, mas haviam dado certo. Sua filha aos seis anos voltara a enxergar. Busquei seus livros. Todos eles estavam escritos em alemão. Pedi, para que fossem traduzidos somente os  trechos que falavam sobre retardamento mental. E lá encontrei ensinamentos que levarei comigo por toda a vida. E que hoje faço questão de dividir com todos!

 


"Como cuidei da minha filha com síndrome de down"

Ao me debruçar sobre as traduções do alemão, fui decifrando conselhos milagrosos.

Lendo as traduções feitas, aprendi que:

• a água tem grande valor terapêutico - banhos a vapor, banhos quentes, banhos frios e todos esses banhos às vezes intercalados uns com os outros fazem verdadeiros milagres;

• exercícios podem e devem ser feitos já nos primeiros dias de vida, desde que não haja contra-indicação médica;

• devemos conversar com a pessoa que está sendo tratada, sempre lhe assegurando que ficará curada, mesmo que esta pessoa seja apenas um bebê;

• a parte digestiva é uma das responsáveis pelo atraso mental;

• uma alimentação natural ajuda muitíssimo;

• chás, ervas e raízes fazem verdadeiras maravilhas;

• os enlatados, os frios e os refrigerantes são os piores inimigos para quem quer ter uma mente sã;

• os ácidos colocados nas latas para conservação dos alimentos e os produtos que conservam os frios envenenam o sangue, atacam o pâncreas, o fígado, a vesícula e, conseqüentemente, todo o corpo.

Entendi que, se eu quisesse fazer algo pela minha filha, tinha que começar pela alimentação e pelos exercícios.

Comecei a fazer o que o livro ensinava:

1. massageava seu corpo inteiro para ativar a circulação;

2. massageava a coluna vertebral, correndo com os dedos indicadores de cima para baixo, dos dois lados ao mesmo tempo, para massagear cada ramificação;

3. massageava cada vértebra - a massagem das vértebras era feita de forma ritmada, com pressões circulares ao redor dela, e depois eram feitas pressões em cada vértebra de cima para baixo, começando na nuca e indo até a última vértebra, tudo com muita delicadeza e cuidado;

4. Levantava com muito carinho seus bracinhos e os abaixava;

5. cruzava-os na frente do peito e os abria em cruz;

6. cada perninha era levantada sem dobrar o joelho e abaixada da mesma forma;

7. Segurava seus pezinhos juntos, dobrava seus joelhos, fazendo uma leve pressão para que eles chegassem perto da barriga, depois esticava suas pernas novamente;

8. Enquanto uma perna ficava esticada, com a outra eu dobrava seu joelho, levando-o até a barriga - praticamente era o mesmo exercício, só que com uma perna de cada vez;

9. Segurando seu pé, apoiava a mão esquerda em seu calcanhar e com a direita eu girava seu pezinho (sempre com delicadeza) para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo;

10. Apoiando suas costas em uma das minhas mãos, e a outra em seu peito, fazia com que se sentasse e deitasse;

11. Da mesma forma, segurava sua cabecinha (com muito carinho) e virava-a para a direita e para a esquerda;

12. Segurava os dedinhos das mãos e os fazia dobrar-se sobre meus dedos indicadores, aí eu os puxava delicadamente para que ela aprendesse a segurá-los;

 

 

"Ela conseguiu andar sem que eu precisasse segurá-la"

 

Era preciso muita disciplina para cuidar da minha pequena Rita. Na primeira semana, cada exercício era feito apenas uma vez; na segunda semana, fazia cada exercício duas vezes, e assim por diante, até chegar a dez vezes cada exercício.

Ao trocar as fraldas de Rita, em vez de colocar alfinete, enrolava faixas largas desde os quadris até embaixo dos braços, para que sua coluna ficasse em posição correta.

Comprei uma bola, de um metro de diâmetro, para fazer fisioterapia. Uma parte enchi no posto de gasolina, mas o resto acabei de encher no sopro, porque ela totalmente cheia não entrava em casa. Deitava Rita sobre a bola e a segurava delicadamente. Balançava a bola para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo. Mesmo ela tendo poucos dias de nascida, conversava com ela, dizia que iria ficar boa, que era linda, que era minha princesa. No começo dos exercícios, ela não demonstrava nenhuma reação.

Mas, com o passar do tempo, ela começou a querer se virar para o lado oposto de onde eu virava a bola. A fazer força com a cabecinha para cima quando eu inclinava a bola para baixo, e apoiar levemente as mãozinhas na bola para se segurar quando inclinava a bola para cima.

Voltei a trabalhar quando ela completou quatro meses. Mas isso não me impediu de continuar cuidando dela. Aos 8 meses, comecei a sentá-la no cadeirão para lhe dar comida. Mas ela não conseguia ficar reta e se inclinava para frente, encostando a cabeça em cima do prato.

Resolvi, então, colocar  uma almofada, entre ela e a mesinha do cadeirão. Deu certo. A almofada impedia que ela se inclinasse para frente, mantendo-a sentada corretamente. Comecei a lhe dar papinha, mas caía tudo para fora da boca, porque ela não sabia mastigar direito e movimentava sua língua, empurrando-a para fora. Era muito triste ver isso.

Tive a idéia de ajudá-la a mastigar: eu empurrava sua língua para dentro da boca, aí colocava a comida e depois, com carinho, segurava o queixo dela e o impulsionava para cima e para baixo, simulando a mastigação, para que ela pudesse aprender como fazê-lo e isso impedia que a língua saísse da boca totalmente. E assim fazia a cada colherada. Busquei novamente ajuda nos livros.

O que achei em um deles foi uma massagem específica, que assegurava dar ótimos resultados. E que ajudaria a manter sua língua dentro da boca, facilitando assim a mastigação.

Em seguida, comecei a executar todas as massagens indicadas:

1. massagem nas mandíbulas, com leves pressões;

2. nas têmporas;

3. rotativas nos encaixes das mandíbulas e leves pressões;

4. embaixo do queixo, com pressões leves, mas na seqüência de começar pelo meu dedo mínimo, passar pelo anular, pelo dedo do meio, indo terminar com o indicador - tudo isso era feito em uma parte de cada vez;

5. abrir e fechar sua boca várias vezes, como se fosse uma mastigação. Acrescentei mais esta massagem às outras que eu já fazia.

Quando tinha um ano e cinco meses, Rita apoiou-se em mim pois queria ficar em pé. Queria começar a andar. A partir desse dia, para ajudá-la a andar, eu colocava uma fralda por baixo dos braços dela, segurava as duas pontas nas costas, firmando-a para que ela conseguisse manter-se de pé sozinha. Quando ela conseguiu permanecer em pé, caía muito pois não conseguia andar. Para ensiná-la a andar, colocava seus pezinhos sobre os meus (com ela de frente para mim) e eu caminhava de costas para que ela pudesse dar seus primeiros passos.

Nem acreditei quando vi. Finalmente havia chegado o dia que ela conseguiu andar sem que eu precisasse segurá-la. Mas ela dava alguns passos e caía, por causa dos pés que eram virados para dentro.

"...e ela ia procurando onde estava o foco de luz."

 

Quando Rita completou dois anos e meio, chegou a hora de trabalhar o resto de sua coordenação. Fazia tudo como se fosse uma brincadeira, para ela não se cansar e sempre querer participar.

No escuro, eu acendia uma lanterna e dizia: "Filhinha, cadê a luz?", e ela ia procurando onde estava o foco de luz. Batendo palmas, eu dizia para ela "Achoooooooou!" Apagava a lanterna e acendia, colocando o foco em outra direção. Algumas vezes, fazia com que o foco da lanterna fosse colocado atrás dela para que se virasse; outras vezes, para cima e para baixo, para que ela o seguisse e aguçasse sua atenção.
Tocava um sininho atrás dela e ela virava para ver o que era. Eu dava um beijo nela e

ela ria.


 Eu a fazia segurar objetos finos e grossos, objetos grandes e pequenos. Passava sua mão sobre uma lixa e depois sobre o veludo, sobre coisas lisas e coisas onduladas, sobre coisas quentinhas e sobre coisas geladas, para que ela aguçasse o tato e sua percepção ficasse cada vez mais apurada.
· Colocava pequenina pitada de sal em sua boca, deixando que ela sentisse bem o sabor, e depois colocava a mesma quantidade de açúcar em sua boca, para que ela sentisse a diferença. Outras vezes, fazia a mesma coisa só que com vinagre e depois com mel. Aguçando, assim, cada vez mais seu paladar.
· Eu a fazia cheirar perfume e depois algo com cheiro desagradável, para que ela aguçasse o olfato.

Quando ela completou três anos e meio, comecei a trabalhar com as cores. Comprei um boliche de plástico e pintei cada garrafinha de uma cor. Brincava com ela colocando um pino (vermelho) em pé e dizia: "A mamãe vai pegar a garrafinha vermelha!", e corria até a garrafinha e a pegava. Aí falava para ela: "Agora é você que vai pegar a garrafinha vermelha”.

Ela olhava para mim e continuava sentada no chão. Então eu a levantava, segurava suas mãozinhas, levava-a até o pino e fazia com que ela o pegasse. Aí eu batia palmas e fazia festinha para ela, e ela sorria. Passado mais de três meses de várias tentativas sem sucesso, depois de mais uma tentativa infrutífera  eu caí em prantos e, olhando para ela, falei: "Não está dando certo. Você não pode compreender o que eu estou pedindo..." Ela me olhou fixamente, levantou, foi até a garrafinha vermelha, pegou-a e me deu. Como se dissesse: "Eu posso sim. Não desista, mãe, dando certo."

Naquele momento eu a peguei no colo e a abracei e a beijei muito. Aquilo foi uma injeção de ânimo, ela estava conseguindo entender o que eu estava ensinando.

Após ela ter aprendido a cor vermelha, comecei a trabalhar com ela as outras cores. Agora era a vez do o pino amarelo, e assim foi sucessivamente, até ela aprender todas as cores básicas. Após ter aprendido, fazia diariamente exercícios para que ela não esquecesse mais as cores. Colocava 2 pinos de cores diferentes - por exemplo, o vermelho e o amarelo - e dizia: "Agora, pega o vermelho. Agora, pega o amarelo”.

Achei que ela já estava preparada para aprender mais e comprei letras e números de madeira bem grandes. Fiz o mesmo tipo de exercício que havia feito com ela para aprender as cores, só que agora eu a fazia passar a mão sobre a letra ou o número. "Esta é a letra A" ou "Este é o número 3". Colocava no chão e pedia para que ela o fosse buscar, e assim por diante. As pessoas diziam que eu estava louca - "Imagine querer ensiná-la a ler com 3 anos, ainda mais deficiente!" Mas não era isso. Eu queria apenas que ela conhecesse o nome das coisas.

No quinto aniversário do meu filho, meu marido me informou que estava indo embora com outra mulher. Ele estava me deixava sozinha, com duas crianças, uma de  deficiente três anos e outra sem deficiência de cinco. Após dizer adeus para as crianças pegou suas malas e saiu. Um nó apertou minha garganta, impedindo-me de chorar. O desespero tomou conta de mim.

Conversando com um amigo ele me disse que tinha um escritório de advocacia que estava procurando alguém que fizesse trabalhos de datilografia em casa. Fui até lá e após contar-lhes minha situação fui admitida. Pegava os processos após sair do serviço e ficava até tarde da noite datilografando-os. Uma noite, era dia das mães, meu filho desceu sonolento, de pijama e pediu para que eu fechasse os olhos e abrisse as mãos pois tinha um presente para mim. Quando senti aquele papel em minhas mãos, achei que fosse algum desenho feito na escola. Qual não foi minha surpresa quando ao abrir os olhos vi escrito: "Diploma de Datilografia, e o nome do meu filho". Ele havia pedido para o meu irmão pagar o curso de datilografia para ele, sem que contasse para mim. Ele tirou o diploma com apenas 8 anos, para me ajudar no serviço que eu trazia para casa. Ele me disse: "Mãe, agora você pode dormir que eu vou fazer o seu trabalho". 


"Ela foi matriculada em uma escola normal"

 

Surgia agora mais um problema: um dia ela me pediu para tirá-la da escola de deficientes. Disse: "Mãe, não agüento mais ficar colando papéis e feijões dentro de círculos. Por favor, me tira daqui”!

Para ficar na escola de deficientes ela era normal, mas para ficar numa escola normal ela era deficiente. Fui de escola em escola. Ninguém a aceitava, não queriam nem ao menos vê-la. Apenas diziam não. Andei muito, me cansei muito. Sempre pensando: "Se não a querem aqui é porque não é aqui que você vai ser feliz”.

Não era possível que em São Paulo não houvesse uma escola normal que aceitasse minha filha. Uma escola onde ela fosse feliz. Pela primeira vez desde que ela havia nascido, começava a me sentir derrotada.

Não agüentava mais ouvir um "NÃO" em cada lugar que ia. Em cada escola de balé, em cada escola de natação, em cada escola de ginástica. Nem mesmo no clube ou nas escolas da Prefeitura havia lugar para ela.

Mas nesse mesmo clube e nessas mesmas escolas havia professores para cegos, para surdos, menos para deficientes mentais. Minha mãe sempre dizia: "Quando a solução não vem da Terra, ela vem do Céu”. Aprendi a ter fé e a rezar com minha mãe. Mas chegou uma hora em que não conseguia mais rezar, parecia que meu coração estava vazio, que as orações que sempre fizeram parte de minha vida não tinham mais efeito.

E, numa noite muito fria, após chorar muito,  a única coisa que eu consegui dizer foi: "Senhor, não consigo mais rezar, minha filha tem 10 anos, precisa e quer estudar, me ajude!" E vencida pelas lágrimas e pelo cansaço, adormeci. No dia seguinte, minha irmã veio me visitar e disse: "Viu que abriu uma escola primária aqui pertinho? Por que você não vai lá”?

Pedi que ela fosse por mim, me sentia muito cansada, não queria mais ouvir um não. Ela vestiu a Rita bem bonita e foi até a escola. Quando voltou, trazia um sorriso nos lábios, me abraçou e disse: "Ela já está matriculada”. Só precisa você levar agora os documentos dela. Pulei de alegria. Ajoelhei-me e agradeci ao Senhor por me ter ouvido, e reacendido minha fé.

RitaO RELATO DE UMA MÃE QUE DESAFIOU A MEDICINA - ÚLTIMO CAPÍTULO

    Chegou a adolescência...

 

Rita passou a estudar em uma escola normal. Tinha apenas 10 alunos em cada classe. As professoras a adoravam. Quando ela não entendia algo, elas lhe explicavam com carinho. Se a dificuldade persistisse, as professoras me chamavam e me passavam a matéria, para que pudesse explicar com mais tempo para ela.

Dá até gosto de dizer e pensar na conquista. Foi no Externato São Paulo (digo o nome pois ele já não existe mais, portanto, não estou fazendo propaganda), uma escola maravilhosa, em que todos eram tratados com igualdade, que minha filha fez o primário completo, sem repetir nem um ano sequer. Terminou o curso com 14 anos. Mas ela queria continuar os estudos. Cursar o ginásio.

A mesma luta de sempre, ninguém a aceitava. Um dia após ter saído de uma escola que a havia recusado, sentei-me no carro e chorei novamente, sentia-me muito cansada e sem ânimo para continuar, já era a décima escola que tinha visitado. Fechei os olhos e as lágrimas escorreram, conversei com Deus e pedi sua ajuda, pedi que me mostrasse o que fazer, pois eu não sabia mais. Comecei a dirigir, apesar de estar tão perto de casa me perdi. Parei o carro onde havia um muro muito comprido, precisava olhar o guia de ruas para me localizar. Desci do carro para olhar o nome da rua em que estava. Qual não foi minha surpresa quando olhei uma faixa afixada no muro “Matriculas Abertas para o Supletivo do primeiro Grau”. Disse a mim mesma: Imagina se vão aceitar a Rita aí! Depois pensei, vou lá falar com o pessoal, o máximo que pode acontecer é dizerem não. Fui. Perguntei para a diretora se ela aceitava minha filha nessa escola e ela me explicou das dificuldades de ter uma adolescente deficiente mental, além disso, disse-me também que não havia pessoal especializado. Então propus que eu iria todas as noites junto com minha filha e assim ficaria tomando conta dela. A diretora olhou para mim, sorriu e disse: “A senhora faria isso mesmo por sua filha?” Respondi: “A senhora não sabe o que sou capaz de fazer pela minha filha”.  Ela estendeu duas fichas, e disse que a única exigência feita era que eu me matriculasse junto com Rita. Não tive dúvidas... me matriculei, no período noturno, pois trabalhava durante o dia.
Podia agora ajuda-la ainda mais, pois assistindo as aulas, compreenderia melhor a explicação dada, e ensinava a matéria para ela.

Um dia uma professora de português colocou-a longe de mim, para que fizesse a prova sozinha, porque não acreditava que ela conseguisse dar conta das questões. E ela fez. Nota? "P" (equivale a 10).
Fizemos até a sétima série, depois ela não quis mais continuar estudando.
 Uma amiga sabendo que minha filha tinha desistido dos estudos, perguntou-me: Valeu a pena você ter se sacrificado tanto. Sair do trabalho cansada e ainda ir estudar a noite?Eu lhe respondi que sim, havia valido a pena, pois minha filha tinha a certeza agora que podia contar comigo, para tudo que precisasse.

Rita parecia insaciável de saber, após ter saído do ginásio, quis aprender computação.  Todas as dificuldades que  eu tivera para ela estudasse, voltaram agora nos cursos de computação. Após coloca-la num curso, um dia ela me diz: “Mãe não quero ficar fazendo joguinho, quero aprender a escrever no computador”. Fui falar com o professor e ele me disse que naquela escola não havia professor especializado, para dar aula para ela.  Por amor à minha princesa, comprei um computador,  fui aprender a lidar com ele, e cada lição aprendida, era repassada para ela com todo o carinho.

O computador ela adora. Já sabe até fazer etiquetas para talão de cheques, fora os joguinhos, que são sua diversão.
Outro dia, eu estava mexendo no computador. Após ter entrado no diretório "D:" e brincar com um joguinho, não sabia mais como voltar para o diretório "C:". Eu estava reclamando alto por não acertar, quando ela chegou pertinho de mim e disse: "Mãe fica calma, eu te amo. Você tem primeiro digitar C: depois apertar o ENTER" Eu sorri...  quem está me ensinando as coisas agora é ela. Minha filha é minha melhor amiga. Muitas vezes, quando o mais velho faz malcriação, ela me fala: "Mãe, ele é adolescente, deixa ele, eu nunca vou responder para você."

Um dia, ao ver todas as minhas sobrinhas quase da mesma idade da minha filha se vestirem em alvoroço para irem a uma danceteria, senti dó da Rita e chorei. Ela perguntou por que eu estava chorando.

Eu, que nunca menti para ela, disse que era porque ela era deficiente. Ela olhou zangada para mim e disse: "Deficiente, mãe?! Isso era quando eu era pequena. Você já me curou." Ela enxugou minhas lágrimas e me abraçou. Foi fazer um café gostoso, que trouxe para mim.

Em outras situações, quando estou doente, fica ao meu lado sem dormir para cuidar de mim, trazendo-me remédios, água ou o que eu precisar. Outro dia, ligou para minha irmã pedindo para que viesse em casa porque eu estava com muita dor de cabeça e ela não sabia que remédio me dar. Essa filha é um presente de Deus. Encerro com uma coisa maravilhosa que ela escreveu, sozinha, no computador (logo que aprendeu), com letras bem grandes, e me deu de presente: "Obrigada por você ser minha mãe”.