De mãos dadas com Deus II

Parte II

Ouvindo Rita falar sobre seus sentimentos, reparei que ela não era mais a minha menininha, ela já era uma moça, estava com 17 anos, e, como toda moça, queria arrumar um namorado. Como realizar esse sonho não dependia mais de mim, dependia apenas do destino, eu me senti imensamente frustrada por não poder fazer nada.

Ela não ia a muitos locais onde pudesse conhecer rapazes, e, portanto tornava-se quase impossível seu sonho se tornar realidade. 

Quantas e quantas vezes, enquanto ela desabafava comigo falando de sua solidão, meu coração de mãe “sangrava” e vinha novamente àquela impotência de nada poder fazer.

Todo o sofrimento de minha filha me impelia a pensar no que poderia ser feito para ajudá-la.

A cada desabafo feito por Rita, eu pedia a Deus que tivesse pena da minha filha, explicava a ELE que ela só almejava o que qualquer moça almeja, ter um namoradinho. Eu rezava, rezava muito pedindo ao Criador que tirasse minha filha da solidão em que ela se encontrava.

Acreditei que se ela saísse mais vezes sua solidão diminuiria, comecei a levá-la a vários locais, mas, um dia ao convide-la para ir ao shopping comigo, ela meigamente me disse:

- Mãe você promete que não fica zangada comigo?

- Não fica zangada viu, mas, eu não quero mais sair com uma pessoa velha.

Como eu poderia me zangar com ela se compreendia tão bem seus sentimentos, se compreendia tão bem o que ela queria expressar ao dizer isso.  Sabia que ela me amava, mas, como todo jovem, queria a companhia de outros jovens.

Os lábios de Rita foram deixando de sorrir, seus olhos ficaram cheios de tristeza, ela compreendia que era diferente, compreendia que os rapazes “normais” não a olhavam com interesse, que eles não a iriam namorar por ela ser portadora da síndrome do Down.

Preocupada com ela comecei a rezar. A oração sempre fez parte de minha vida, mas daquele momento em diante se intensificou mais e mais.

Certo sábado, Eduardo entrou na sala, onde me encontrava um brilho de felicidade em seu olhar, ele se aproximou de mim, agachou-se, segurou minhas mãos, e disse com muito tato:

- Mãe, eu e a Giuliana[1][1], fomos à uma feira beneficente numa escola, é uma escola para portadores da síndrome de Down, lá há muitos rapazes e moças limítrofes[2][2]. Eu os vi trabalhando nas barracas, eles são muito espertos e são muito alegres. Mãe, não fica zangada com o que eu vou falar, mas, se você colocar a Rita lá ela vai fazer novas amizades e vai ser mais feliz.

E, tirando do bolso, um papel dobrado, continuou:

- Olha, peguei todos os dados de lá. O nome é ADID, esse é o telefone deles.

Percebi nesse momento que meu filho, tanto quanto eu, havia ficado muito preocupado com a tristeza que tomara conta de Rita.

Dizendo que ia ligar, agradeci e dei-lhe um beijo na testa.

À noite, quando todos dormiam, pequei novamente aquele papel e abri, fiquei olhando para ele, senti lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto. Perguntei a mim mesma, de que adiantara ter lutado tanto pela inclusão de minha filha em escolas normais, de que adiantara todos os esforços feitos por mim, ter-lhe dado uma profissão ensinando-a computação... saber com perfeição passear pela internet, mandar e receber e-mails, trabalhar com o Microsoft Word fazendo digitação escolar, cartões de visita e etiquetas, de que adiantara a minha luta durante todos aqueles anos pela inclusão de Rita na sociedade, se agora eu "precisava" colocá-la numa escola especial para que ela tivesse amigos.

Com aquele endereço em uma das mãos e a foto da minha filha na outra me ajoelhei e rezei:

- Deus, não importa meus sentimentos, eles nada valem, me mostra o caminho que devo seguir para que minha filha seja feliz.

Após essa breve prece, levantei-me e fui para cama, mas lá continuei a rezar, como das outras vezes, depois de muito rezar e chorar, cansada, adormeci.

Pela manhã acordei com uma imensa paz, e algo dentro de mim mandava que eu ligasse para a escola, e assim fiz.

Finalmente chegou o dia que eu deveria ir a ADID para conversar com a diretora, para mim aquele dia parecia o dia do juízo final, estava triste, me sentindo derrotada. Queria que alguém fosse comigo até a ADID, mas não consegui ninguém para me acompanhar. Com o coração cheio de angustia, sozinha, me dirigi à escola.

Durante a entrevista, entre outras coisas, fiquei sabendo o valor da mensalidade escolar era exorbitante, ela estava muito além das minhas possibilidades.

Mesmo explicando à minha entrevistante que Rita já havia feito o ginásio e sabia muito bem computação e por isso, não precisaria da escola para se alfabetizar ou profissionalizar-se, que ela só precisava da escola apenas  para ter amigos, a diretora se mostrou irredutível, quanto à minha proposta que era de pagar um pouco menos.

Tomada pela emoção desabei a chorar, tudo era sempre tão difícil para mim. Com vergonha e sentindo-me um pouco humilhada lhe expus minha situação financeira. Expliquei-lhe que eu era aposentada, que eu fazia alguns trabalhos extras para complementar o nosso orçamento doméstico, expliquei-lhe também que meu marido e meu filho estavam desempregados. Demonstrei a essa mulher que jamais poderia pagar aquela mensalidade altíssima.

Depois de lhe ter contado tudo isso, pedindo a Deus que me ajudasse, fiz a ela minha última uma proposta:

- Rita pode vir aqui uma vez por semana aqui na escola, isso ajudaria ela a conviver com pessoas jovem como ela. Eu acredito que  isso fará muito bem a ela e que ela fará novas amizades.

Ao ouvir isso, a diretora levantou-se e estendendo a mão para se despedir, falou:

- Vou estudar sua proposta.

Vendo essa atitude fria de sua parte, sem muitas esperanças despedi-me dela.

Todos os dias que se seguiram eu rezava, e em minhas orações pedia a Deus que se fosse para a felicidade da minha filha, que a escola ligasse. Alguns dias depois o telefone toca, era da ADID. Pediam que eu comparecesse com Rita... Eles queriam conhece-la.

Levei-a lá, todos gostaram muito dela. Ela subiu foi conversar com a psicóloga, depois conversou com mais duas ou três pessoas.

Depois disso pediram que eu e minha filha  aguardássemos uns minutos.

Depois de aguardar uma hora mais ou menos, duas senhoras apareceram na sala, uma levou a Rita para conhecer a escola, e outra (infelizmente, não recordo o nome) pediu para que eu a acompanhasse. Fomos a uma sala. Lá, sorrindo bondosamente, essa pessoa me disse que me minha menina poderia freqüentar a escola todos os dias e que eu daria uma contribuição mensal, estipulada como doação à escola.

Fiquei muito contente e não respeitando burocracias, dei-lhe um abraço forte.

Quando Rita ficou sabendo que começaria a freqüentar a ADID, falou que não queria ir para lá. 

Então eu lhe disse:

- Filha, Deus quer sua presença na ADID, eu não sei bem porque, mas, ELE, sabe.

Ela que aprendeu comigo a respeitar a vontade de Deus, respondeu:

- Se é isso que ELE quer de mim, então eu vou.

Apesar de ter feito algumas amizades na escola, Rita não conseguiu preencher o vazio que sentia em seu coração, ela queria encontrar alguém especial, um alguém só para ela...Um namorado.

Como ela já navegava muito pela internet, achei que ela teria uma chance de conhecer alguém através de uma sala de bate papo.

Juntas escolhemos a sala "de 15 a 20 anos". 

Logo que ela entrou na “sala” começou a conversar longamente com um rapaz da sua idade, depois de uns dez minutos de conversa, feliz, ela virou-se para mim e disse:

- “Mãe ele gostou de mim, pediu meu e-mail ou meu telefone”.

Eu retruquei:

- “Filha, não dá o telefone, dá só o e-mail, mas, antes de fazer isso, diga-lhe que você é portadora da síndrome de Down”, e fiz de conta que continuava a ler o jornal.

Após mais alguns momentos no computador, ela falou:

- “Mãe, depois que eu falei que era Down, ele não falou mais nada”.

Ergui meus olhos do jornal, ia falar alguma coisa, mas, calei-me, as lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela levantou-se, e foi silenciosamente para seu quarto.

Esse mesmo fato eu vi ocorrer muitas vezes, todas as vezes que ela num bate-papo contava ao seu correspondente sobre sua síndrome.

Na última vez em isso ocorreu, ela olhou para mim com seus olhos azuis cheios de lá lágrimas e disse:

- “Não adianta mãe, ninguém quer namorar uma moça Down”.

Com o coração espremido no peito eu a abracei e lhe disse:

- “Filha já vencemos tantas coisas, vamos vencer isso também.”

Segurei suas mãos e rezei:

- “Deus, Todo poderoso Vós que olhais pela minha filha, faz ela ser feliz. Ela merece ser feliz, pois é uma boa filha. Coloca no caminho da Rita um rapaz que a  faça muito feliz”.

Rita olhou para mim e me abraçou.

Mas, eu mesma, não sabia como ia fazer para ajuda-la a vencer essa etapa de sua vida. Agora não dependia mais de mim e sim do mundo.

À noite ela entrou no meu quarto trazendo seu travesseiro e me disse:

- “Mãe posso deitar com você, eu estou me sentindo muito sozinha”.

Deitou-se bem pertinho de mim, eu a abracei e apaguei a luz para que ela não visse as minhas lágrimas escorrerem.

Como sempre rezei, e pedi a Deus que iluminasse o meu caminho, que me mostrasse o que eu deveria fazer.

Na manhã seguinte acordei com uma pergunta martelando meu cérebro... Será que todo o portador de deficiência passava pelo mesmo constrangimento, todas as vezes que entrava numa sala de bate-papo e contava sobre sua deficiência?

Para ter a resposta a essa pergunta, resolvi entrar numa sala de bate-papo, por idade “de 20 a 30 anos”. Mentindo minha idade e meu estado civil, comecei a conversar com um rapaz, rimos, conversamos muito... Ele dizia que eu era a moça que sempre procurara, que eu tinha uma excelente cabeça, que estava me adorando, finalmente ele pediu meu e-mail, segundo ele, não queria me perder de vista.

Foi nesse momento, que eu disse-lhe que era portadora de paralisia infantil e que por isso era obrigada a usar uma cadeira de rodas.

O rapaz conversou mais um pouco comigo, fez-me mais alguns elogios, e saiu da sala, nem sequer disse, adeus.

Não me contentei com essa experiência, precisava ter outras mais...

Comecei a entrar em horários variados nas salas de chats. Entrei nas salas Por Idade ("de 15 a 20 anos", "de 20 a 30 anos"; "de 30 a 40 anos"; "de 40 a 50 anos" e "Mais 50 anos").

Entrei também em outras salas como "descasados", "gays"; "lésbicas" etc.

Eu precisava verificar se a descriminação sofrida pelo portador de deficiência era igual em todas as salas de bate-papo.

Todas as vezes eu meu interlocutor conversávamos animadamente, riamos, falávamos sobre poesia, sobre nossos sonhos enfim sobre o encanto e desencanto da vida. Mas, quando meu parceiro (parceira) pedia meu e-mail ou o meu telefone, eu contava que era portadora de alguma deficiência.

-          Olha preciso te contar uma coisa, sou paraplégica

Logo após eu contar que eu era portadora de deficiência, meu interlocutor (a) não pedia mais meu telefone, nem e-mail. E, se às vezes que pedia, jamais me escreveu.

Observei, que todas as vezes que contava sobre "minha deficiência", eu era “abandonada” sem nenhuma explicação.

Essa experiência veio me provar, que o preconceito nas salas de bate papo era muito grande.

Acreditei firmemente, que se houvesse uma sala de bate-papo onde os portadores de deficiência não precisassem “esconder” sua deficiência, para poder ter uma amizade, mesmo que virtual, seria o ideal.

Pensei em fazer um site, e nele criar essa sala, mas, quem saberia da existência dela? Eu era uma pessoa desconhecida, uma simples aposentada.

Depois de muito pensar a solução que encontrei, foi criar a sala num provedor em que as salas de bate-papo fossem bem conhecidas.

Decidi então escrever para os provedores UOL e STI. Mandei um e-mail a ambos, relatando as experiências pelas quais minha filha havia passado, e também as experiências pelas quais passei. Pedi, que eles criassem uma sala destinada aos portadores de deficiência.

Da UOL recebia apenas mensagens eletrônicas (com números e ou com alegações de que estava estudando o assunto). O STI, nunca respondeu.

Fiz então um abaixo-assinado via internet, contando sobre as experiências feitas e falando sobre minha reivindicação.

Encabeçando o mesmo, comecei por passa-lo às minhas amigas e amigos. Pedi a eles ajuda, pedi que repassassem aos seus conhecidos e assim por diante.

 

As pessoas que mais me ajudaram a propagar o abaixo assinado, além do meu filho Eduardo, minha irmã Ruth (SP), foram as amigas Marlene (RJ) – nick Nezinha e suas filhas Luciana e Rosana (RJ), Maria Eugenia (RJ) - nick Doce de leite (que fez um site exclusivamente para pedir colaboração para o abaixo assinado). Meus amigos, Mauro (RJ) e Dagoberto (RJ) – nick Dagô.

 

Com esse exército de pessoas bem intencionadas, consegui 390 assinaturas (com R.G) via internet.

 

Enviei novo e-mail, com o abaixo assinado para a UOL e STI, mas, de nada adiantou, eles continuaram a ignorar meu pedido.

Comecei então a mandar cartas para tevês, rádios e jornais, nelas eu falava sobre o preconceito encontrado e sobre meu sonho de criar a sala para portadores de deficiência, infelizmente também nesse caso fui totalmente ignorada por eles.

Apesar de ter escrito para muitos e muitos lugares, nunca tive um retorno sequer.

Naquela manhã fria, desanimada, achei que estava na hora de desistir daquela luta insana. O tempo passara rapidamente, já faziam dois anos e oito meses que eu começara a lutar. 

À noite deste mesmo dia, Luciana (amiga do RJ), me liga para perguntar se eu tinha alguma novidade.

Suspirando lhe respondi que não tinha nenhuma novidade, mas que estava cansada e que a partir daquele dia eu estava abandonando meu sonho, e que estava desistindo de tudo.

Ela disse algumas palavras de ânimo e depois falou para que eu tentasse mandar uma carta para o jornal O Globo.

- “Muriel, esse jornal daqui do Rio de Janeiro (lugar que ela morava) publica todas as cartas dos leitores”.

- Lu, se os jornais daqui de São Paulo, não se interessaram em publicá-la, imagina se os Rio vão se interessar... Não vou mais lutar.

Nos despedimos e fui me deitar.

Já na cama, fiz uma oração:

“Deus, tudo parece tão difícil, todas as portas estão fechadas, mesmo eu batendo insistentemente ninguém as abre para mim. Estou muito cansada, não consigo continuar caminhando, minhas forças se esgotaram. Deus se for da tua vontade que essa sala seja criada, manda teus anjos abrirem as portas que estão cerradas".

Na manhã seguinte, ao abrir minha caixa postal, encontro um e-mail de Luciana. O mesmo trazia apenas o e-mail do jornal O Globo.

Aquilo parecia uma resposta de Deus, às minhas preces, imediatamente escrevi para eles.

Quarta Feira, 24 de janeiro de 2000, abro minha caixa postal, lá e encontro uma mensagem da minha amiga Maria Eugenia:

"Murieeelllll, sua carta saiu hoje publicada no Jornal O Globo. Segue a reportagem scaneada para você ler. Parabéns".

Dei saltos de alegria, abracei a todos que estavam perto de mim, depois emocionada, agradeci a Deus por ele ter me ouvido, por ter aberto a primeira porta.

A carta publicada pelo Jornal o Globo do Rio de Janeiro, em 24 de janeiro de 2000.


A reivindicação sensibilizou a StarMedia, que entrou em contato comigo um dia após a publicação.

Após vários telefones e trocas de e-mails, nasceu sala "Deficientes". Ela foi a Primeira Sala de Bate-papo do Brasil, para Portadores de Deficiência.

Com alegria, aceitei o convite da StarMedia, para participar de um chat em 07.02.2000. Emocionada, ia respondendo uma a uma, as perguntas formuladas pelos internautas.

Por ser inédita no Brasil, a criação da sala de bate papo para portadores de deficiência, vários jornais, deixaram estampada em suas páginas, o fato. Entre esses jornais estão: a) O Globo, RJ, 07.02.2000 - "Leitora ajuda a criar sala de chat só para deficientes" ; b) Diário Popular  - "Libertando-se do Preconceito" e "Mãe Luta por espaço para deficientes na internet", caderno Informática, 14.03.2000;  c) *O Estado de São Paulo, SP, 14.02.2000; d) Jornal SuperAção, março/abril 2000;  e) Folha do Servidor Público, setembro/outubro/2000 -  pg. 24; f) Diário do Nordeste, Ceará, Fortaleza, 28.02.2000; g)Jabaquara News, SP, 11/08 à 17/08 de 2000.

E também pelo Site Digital Report – 07.02.2000.

Rita e eu fomos convidadas pelos Deputados Roberto Engler e Célia Leão, a comparecer, à Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. Lá chegando, fomos entrevistadas por ambos. Roberto Engler convidou-me para comparecer às seções em favor dos deficientes. Célia conversou longamente conosco se interessando por Ritinha e por sua vida.

Consta, à pedido desta mesma deputada, na ata da Assembléia legislativa: Voto Congratulações.

Logo após a StarMedia ter entrado em contato comigo, a UOL, também entrou.

Pedi ao pessoal da UOL, que fizessem, mais de uma sala... a UOL atendeu ao meu pedido.

A StarMedia infelizmente fechou suas portas no Brasil, até hoje ainda existe a sala Deficiente na UOL.

Até  20 internautas, as salas Deficiente podem ser visitadas gratuitamente. Para visita-las:

1.    http://www.uol.com.br  ;

2.    Clique em: bate-papo;

3.    Clique em: Variados

4.    no menu que surgir, clique em “Deficientes".

 

Depois da criação da sala Deficiente, eu me senti realizada, minha filha, assim como outros portadores de deficiência, não precisaria mais se “esconder” para arrumar amigos.

Sentada em frente ao computador, feliz da vida, Rita falou:

- Mãe agora posso entrar na sala Deficientes e contar para quem estiver falando comigo, que sou portadora da síndrome de Down, não preciso mais me preocupar.

Sorrindo, concordei com ela.

Ledo engano o meu. Com tristeza precocemente descobri, através das novas lágrimas de minha filha, que os portadores de deficiência física tinham  preconceito contra os portadores de deficiência mental.

Mas isso não deixou que eu esmorecesse. Entrando anonimamente lá perguntava, discretamente o que eles achavam da nova sala, todos que questionei, responderam que estavam muito felizes.

A salinha poderia não servir para os portadores de deficiência mental, mas seriam com certeza aos outros.

Entusiasmada resolvi fazer encontros entre os freqüentadores para que se conhecessem pessoalmente.

O primeiro deles, foi realizado no dia 28 de fevereiro de 2000, num restaurante famoso do shopping Ibirapuera.

Foi maravilhoso, havia muitas pessoas, entre elas, uma amigo da escola que Rita estava freqüentando, ele era um rapaz bonito, simpático, e portador da síndrome de Down.

Ao ver Rita, ele sorrindo, sentou-se junto dela. Eles conversaram muito, e vez por outra riam gostosamente. Reparei que os olhos de minha filha, brilhavam, eles sempre foram muito brilhantes, mas, agora brilhavam de uma forma que eu jamais vira... era um brilho diferente.

Num dado momento Ariel levantou-se, foi até o rapaz que tocava piano e falou qualquer coisa.

O moço se coloca de pé e diz: A música que vou tocar agora, é oferecida pelo Ariel à Rita de Cássia.

Para mim esse fato foi emocionante.

Ao terminar aquela música, Rita também foi ao pianista. Ele novamente se coloca de pé e diz:

- Essa música é oferecida ao Ariel, quem a oferece, é Rita de Cássia.

Nesse dia nascia uma grande amizade entre eles.

No começo eram apenas alguns telefonemas, depois esses telefonemas foram aumentando até acontecerem várias vezes por dia. Vieram então os encontros, no princípio, esporádicos. Depois começaram a acontecer todos os domingos e com o passar do tempo, os encontros foram sendo mais assíduos, eles eram realizados todos os finais de semana aos sábado e domingo.

Uma noite a mãe do Ariel, me telefona e diz:

- Muriel, vou viajar esse fim de semana e o Ariel não quer vir comigo, ele quer dormir aí na sua casa, você se importa?

 Respondi que não, que ele seria recebido como um filho.

Ariel chegou trazendo sua mochila nas costas e um grande sorriso nos lábios.

Após o jantar, eu o chamei para uma conversinha. Disse-lhe:

- Ariel, você esta começando a vir dormir aqui, eu confio em você e sei que você vai respeitar a Rita. Você sabe o que quer dizer respeitar a namorada?

E ele me respondeu:

- Sei! Fica tranqüila Muriel, não vou passar a mão no bumbum da Rita, nem nos peitos dela.

Sem acreditar muito nele, no começo eu ficava de olho para ver o que eles estavam fazendo, mas com o passar dos meses, vi que ele realmente respeitava minha menina.

Foi assim que Ariel começou a dormir em casa. Ele vinha na sexta feira à noite, ia embora no domingo (ao entardecer).

Cada fim de semana era esperado com muita ansiedade por ambos. Eram os dias que eles passavam mais tempo um ao lado do outro.

Uma sexta-feira, Ariel ligou para Rita dizendo que ele não poderia vir, pois a mãe ia viajar, e, sua avó estava gripada, e ele não queria deixa-la sozinha por isso ia dormir com ela. Perguntou se a Rita não podia ir dormir lá também.

Quando Rita me fez essa pergunta, logo pensei: A avó está doente, vai deitar cedo, lá ele está no terreno dele, será que não vai extrapolar nas carícias?

Nunca tinha me separado da minha filha, e meio amedrontada com meus pensamentos, respondi:

- Não!

Imediatamente vi suas lágrimas escorrerem. Ao telefone, chorando informou a ele que eu não permitira.

Depois de desligar, disse-me:

- Mãe quando falei que não ia, ele começou a chorar. Disse que não quer ficar sem me ver esse fim de semana.

Olha mãe, se ele pode dormir aqui em casa, eu também posso dormir na casa da avó dele.

Por dentro eu sorri aquela baixinha de olhos azuis, minha filhinha, já não era mais uma menina, era uma moça e estava reivindicando seus direitos...  Ela era uma adolescente igualzinha as outras. 

Por causa de seus argumentos, e confesso também por um pouco de pena,  pois ambos estavam chorando, resolvi voltar atrás na minha decisão.

- Está bem, está bem, você pode ir. 

Ela pulou de alegria, saiu correndo, ligou pra ele. Depois me abraçou, me beijou e foi arrumar suas coisas.

Arrumou tudo com tanta alegria e felicidade, que chegue a me comover. Como de costume, conversei em meus pensamentos com Deus: Deus é tão pouco o que ela pediu, mas, esse “tão pouco” a deixou tão feliz.

Seria tão bom, se todas as pessoas ditas normais pudessem se alegrar com as pequenas