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Eduardo há muito tempo eu desejava
fazer-lhe uma homenagem. Quero
dizer publicamente que você é um companheirão, meu melhor amigo e um
maravilhoso filho. Infelizmente você começou a conhecer as
tristezas da vida muito cedo. Quando seu pai chegava bêbado da rua brigava
comigo e nessas brigas me ofendia com palavras pesadas, eu chorava... Você? Você ficava ali olhando para ele e
deixando suas lágrima caírem silenciosas e me abraçava apertado. Com o
passar do tempo quando tudo voltava a acontecer sua fisionomia começou a
mudar... no lugar das lágrimas apenas silêncio e um ar de raiva surgiam em
seu rosto. Um dia cansado de vê-lo me ofender, você se colocou entre mim e ele, e disse: - LARGA
A MINHA MÃE! Mas, você era muito pequeno e foi empurrado com
violência. Tantas e
tantas outras ocasiões você tentou defender-me... e você só tinha ainda 4 anos. Apesar
de seu pai beber tanto e ser violento, você o amava muito. Quando ele nos abandonou,
indo embora com outra mulher, você sentiu tanta falta dele que adoeceu. Ficou vários dias com febre alta, e, entre o delírio e a
realidade, pediu: - Mãe, quando o
papai voltar, promete que deixa ele morar aqui, de novo, promete? Não pensei em mais nada, segurei suas mãos e lhe disse: - Prometo. Parece que essas palavras foram muito melhor do que os
remédios que você estava tomando, porque no dia seguinte você já estava sem
febre. E eu com minha promessa feita. Você
tinha nessa ocasião 5 anos. Sua
convicção de que seu pai voltaria nunca o abandonou. Mesmo sem ele dar
notícias, você ficava sentadinho no degrau da porta de casa esperando por ele, todos os sábados, de 1
hora da tarde até o anoitecer. Quando anoitecia eu me ajoelhava pertinho de você
e falava baixinho: - Ele não virá, hoje, meu filho! Tristemente você dizia: - Mãe um dia ele vai voltar. Você nunca deixou de procurar por seu pai. Com
freqüência, ligava para o antigo trabalho dele, para saber se ele estava lá. Um dia, ligou para o jornal “Folha de Informação” e
perguntou: - Moça, onde meu pai está? (...) Como não sabe? Aí não é onde informam tudo? (...) É, estou com muita saudade dele! E dizendo isso, tristemente desligou. Com o coração cortado, abracei você e lhe falei: - Edu, eu não posso trazer seu pai de volta, mas Deus
pode, se é isso que você quer peça a ELE. Eu não
tinha com quem conversar, então conversava com você e um dia lhe disse: - Edu, estou muito cansada, eu não consigo dar conta de tudo
sozinha. Você ficou de pezinho no sofá, colocou seus bracinhos em volta do
meu pescoço e respondeu: - Mãe, você não está sozinha, eu vou cuidar de você e da
Rita, pode trabalhar sossegada. Depois, foi até a cozinha pegou o pano de prato e
enxugou minhas lágrimas. Suas palavras e suas mãozinhas segurando aquele pano
e enxugando minhas lágrimas, foram as alavancas para que eu não esmorecesse
durante os anos que se seguiram. Nessa oportunidade, meu filho, você só tinha cinco e
meio anos... Noutra
ocasião, ao me ver pensativa, olhando para as suas botinhas ortopédicas e as
de sua irmã, que estavam muito gastas, você chegou pertinho de mim e
perguntou: - Mãe por que você está triste? Eu lhe expliquei que o meu dinheiro não dava para
comprar os dois pares de botas, e que estava difícil decidir se comprava as
botas para você ou para a Rita. Você me olhou, com seus olhinhos verdes, me abraçou bem
forte e disse: - Mãe compra as botas da Rita, ela precisa mais que eu,
porque ela tem os pés tortos. Você tinha 6 aninhos Lembro-me
que todas as noites, quando começava a fazer a fisioterapia na Rita, você
vinha correndo me ajudar... Você era o meu pequeno auxiliar. Ela ficava deitadinha no colchonete e, enquanto eu
massageava os pés dela, você segurava a cabecinha da Rita e a virava para a
direita e para a esquerda, com o cuidado e a delicadeza de um profissional. O tempo
foi passando e você sempre me ajudando. Quando eu não conseguia que Rita executasse algum
exercício, você se punha de frente para ela e dizia: - Olha, Ritinha, é assim que se faz! E esticando os braços em sua direção dizia: - Vem, Vem
brincar com o Dodô! (era assim que ela o chamava). Para ensiná-la a agachar, você agachava e segurando as
mãos dela e falava: - Ritinha faz assim, brinca comigo, abaixa agora. Triste e
desanimada por que Rita não conseguia segurar a bola que eu jogava para ela,
falei pra você: - Tá vendo Edu
não adianta. Você falou: - Pera aí mãe. Ficou pensativo por alguns momentos e então colocou-se atrás
da Rita, segurou suas mãos e a ajudou a pegar a bola. Eu jogava a bola e você a ajuda a pegar... Fizemos esse
exercício várias vezes. Depois de algum tempo
ela começou a pegar a bola sozinha. Graças a você. E tudo isso você fazia sorrindo... A Cena
que vi foi muito linda e emocionante e ao recordá-la, ainda agora, depois de
tanto tempo decorrido, meus olhos se enchem de lágrimas. Você sentado com a Rita na frente do espelho ensinando-a
falar as palavras corretamente. Você sempre ficava observando atentamente todas as
atividades que eu fazia com Rita (como ensiná-la a falar, na frente do
espelho), mas nunca havia imaginado que você observava para aprender; eu
achava que você apenas olhava por curiosidade... Mas como eu estava enganada.
Quantas
e quantas vezes seu abraço carinhoso e suas palavras de ânimo devolveram-me a
paz. Uma dessas vezes foi num dia em que estava muito desanimada, e chorando
falei em voz alta: - É muito difícil fazer a Rita compreender o que eu
estou tentando ensinar a ela, sou muito burra, nunca vou conseguir, nunca! Você meu filho adorado, veio ao meu encontro me abraçou
e disse: - Vai sim, mãe! Você é inteligente, você vai conseguir
sim, a Rita demora para aprender, mas ela vai aprender, eu estou aqui para
ajudar você. E com a ponta da camiseta enxugou as minhas lágrimas. Você tinha 6 anos e meio. Eu
acabara de chegar do trabalho, você me disse: - Mãe, sei que você está cansada, por isso hoje você não
precisa fazer comida, eu já fiz. Em cima do fogão estava uma panela, com arroz feito do
seu jeitinho. Não pude conter as lágrimas. Peguei você no colo e o beijei muito. Depois, com carinho, dei-lhe uma broquinha por você ter
mexido com fogo. Você ficava em casa sozinho, a tarde inteira e, para que
não mexesse no fogão, eu trancava a porta da cozinha, mas naquele dia eu
havia me esquecido de trancá-la. Hoje quero lhe dizer meu filho que foi o melhor jantar
de toda a minha vida. Você tinha 7
anos... - MÃE,
VOCÊ NÃO PRECISA mais passar essas roupas, coloquei o ferro no morno, para
não me queimar, e já passei esse monte de roupa que está aqui. Foram essas as palavras que ouvi assim que entrei em
casa ter ficado horas presa no
transito, por causa de uma forte chuva. Eu estava muito preocupada por que esquecera de trancar
novamente a porta da cozinha. Mas, ao ver você em pé no sofá todo compenetrado
passando roupas e ao ouvir suas palavras, tudo isso me emocionou tanto,
tanto, tanto, que não consigo expressar aqui tudo o que senti. E você tinha apenas 7 anos e meio No
mercado, você me pediu: - "Mãe, compra Danone?" Com dor no coração, lhe expliquei que se comprasse o
Danone, o dinheiro não daria para comprar o arroz. Você sorriu e disse: - Não se
preocupe mãe já passou a vontade. - TOMA
MÃE, ESSE DINHEIRO é para você comprar comida. Muito zangada respondi: - Não quero! Você foi pedir dinheiro para seus tios? Eu
já lhe falei mil vezes que não é para pedir dinheiro para ninguém. Você sorriu e respondeu: - Mãe, esse dinheiro eu ganhei. Lembra das revistinhas
que a tia Paula me deu? Eu vendi todas na escola". Filhão, agora, quando penso nisso, as lágrimas teimam em
jorrar, quase não consigo segurá-las. E você tinha apenas sete anos e meio... - MÃE, FALEI PRO MOÇO: “só
tenho isso de dinheiro, me dá um pouco de salsicha, um pouco de lingüiça e um
pouco de carne moída.” Assim, a
gente come coisas diferentes! Sorri, e
por dentro eu senti muito orgulho de você, porque que pressenti que estava
criando um verdadeiro homem. Eu lhe
havia pedido para ir ao mercado, comprar meio quilo de carne moída, e você
voltou com os 3 pacotinhos. Você só
tinha oito anos... - MÃE, ABRE AS MÃOS E FECHA
OS OLHOS! Fechei
os olhos e abri as mãos... Senti uma folha grossa sendo depositada nelas,
logo, pensei: “é algo
que ele fez na escola para o dia das mães.” Ao abrir
os olhos não pude conter as lágrimas, no papel estava escrito “Diploma de
Datilografia”, e logo baixo, em letras douradas, Eduardo Henrique Niess Pokk.
Você havia pedido para seu tio pagar o curso de
datilografia, mesmo sabendo que eu não queria que pedisse nada para ninguém. Mas, desta vez eu não briguei, você fizera tudo isso
para poder me ajudar a datilografar os trabalhos extras que eu trazia para
casa. E você só tinha 8 anos - DEIXA
O PAPAI FICAR, VOCÊ PROMETEU. Quando você fez 12 anos seu pai quis voltar para casa. Você
exultou de alegria. Cobrou de mim a promessa feita. Como eu havia lhe
prometido, deixei-o ficar. Um dia,
ligo para casa ouço um alô muito sonoro de uma voz masculina. Meio sem graça
perguntei: - De onde fala? Do outro lado da linha, uma risada gostosa... - Mãe, sou eu, o Edu. O tempo tinha passado e eu não me dera conta. Você
estava com 14 anos e eu não havia percebido o quanto você crescera. - AGORA EU SOU GRANDE, VOCÊ
NÃO ENCOSTA A MÃO NELA! Foi o
que você disse ao seu pai, colocando-se entre mim e ele, para me defender. Senti
orgulho, e ao mesmo tempo muito medo. Orgulho, por ver que realmente você
estava um rapaz e medo de acontecer uma briga entre vocês. Seu pai
não havia mudado como dissera, continuava bebendo e violento do mesmo jeito. Daquele
dia em diante você se colocou a meu favor me defendendo sempre. Isso fez que eu o amasse ainda
mais. -
GRANDE IDÉIA MÃE, EU AJUDO. Foi o que você me disse quando lhe falei que queria
criar uma sala de bate-papo permanente para portadores de deficiência. Você me ajudou a mandar muitas cartas, a fazer abaixo
assinados e tantas outras coisas mais complicadas. Um dia
depois de dois anos de tantas lutas, frustrada e desanimada comecei a chorar,
você chegou pertinho de mim e me abraçou bem forte (mas desta vez você não
precisou mais subir no sofá - risos) e
enxugando minhas lágrimas e disse: - Mãe você vai conseguir! Quero lhe dizer que fomos nós dois que conseguimos. Sim,
nós dois, porque sem você e sem a sua FORÇA eu jamais teria conseguido. - MÃE, EU FAÇO! Foi o que ouvi de você quando lhe disse que gostaria de
fazer um site de encontros. Você nunca tinha feito um site antes, mas não se
amedrontou. Comprou livros, ligou para amigos e assim com muita
força vontade e amor começou a surgir o nosso site, o site "Grandes
Encontros". - Mãe, vem ver uma coisa. Chequei perto do computador para ver do que se tratava. Você havia feito um site com o meu nome e com algumas
poesias que eu havia escrito durante
minha vida. Esta foi uma surpresa muita linda que guardo de
recordação em meu coração. Era 8 de maio de 2000, dia das Mães. -
MÃE, EU VOU COM VOCÊ. Você disse isso no dia 24 de maio de 2002. Eu precisava ir à escola da Rita, para pedir uma bolsa
de estudos, mas fiquei com medo de ouvir uma recusa. Estou envelhecendo e as
coisas que antes não amedrontavam, agora me amedrontam. Quando entramos na
escola você colocou seu braço sobre os meus ombros e me apertou de encontro a
você (como se fosse para me proteger), e eu me senti protegida. - MÃE, VOU LARGAR A FACULDADE. Você estava no terceiro ano da faculdade quando falou
isso. A faculdade estava muito cara é vendo o sacrifício que
eu fazia para paga-la quis desistir de estudar. Mas, eu não queria que você a largasse, só faltavam 2
anos para você se formar, por isso eu lhe disse: - Edu faça um sacrifício, continue os estudos, só faltam
2 anos, faz uma forcinha filho. E Você me atendeu. - MÃEEE
PASSEIIII. Você havia ido até a faculdade ver a lista dos
aprovados. De repente o telefone toca... eu atendo... e você num
grito alto e sonoro diz: - Passeiiiiiii, mãe eu passeiii. Acredite Edu, aquela emoção que você sentiu eu senti em
dobro. Parabéns filho você está formado, você realizou seu sonho, você é um
psicólogo.
Quando
na colocação de grau chamaram seu nome, chorei. Emocionada lembrei de tudo
que passamos juntos, lembrei do meu moleque, do meu adolescente, e ao ver
você de bata se aproximar da mesa, pegar canudo e ser cumprimentado, tive
orgulho do homem que você havia se tornado. Ao dançar a valsa de formatura com você, notei que
haviam muitos pais felizes, mas, garanto que nenhum deles estava mais feliz
que eu. Estamos
no inicio de 2005, você esta com 26 anos, entre nós nada mudou, você ainda
continua sendo o meu anjo da guarda. Deus te abençoe meu filho. TE AMO MUITO. Muriel Elisa Távora Niess Pokk |